MEMORIAL DO CONVENTO – A HISTÓRIA SEGUNDO JOSÉ SARAMAGO

 

Ana Paula Martins Corrêa - IEL/UNICAMP

 

É preciso deixar de fazer História de Portugal para se começar a fazer a história dos portugueses

José Saramago

 

Introdução

 

Há, dentro do que chamamos gênero romanesco, um tipo de romance que se propõe a trabalhar com a matéria histórica. No estudo desse tipo de romance torna-se imprescindível o debruçar-se sobre a Literatura comparativamente à História, ou seja, torna-se indispensável repensar a questão da diferença e da semelhança entre essas duas formas de escrita.

A colocação de tal questão já pressupõe a polarização entre História e Literatura. Tal pressuposição é, no entanto, freqüentemente questionada. Nas palavras de Linda Hutcheon:

 

(...) é essa mesma separação entre o literário e o histórico que hoje se contesta na teoria e na arte pós-modernas, e as recentes leituras críticas da história e da ficção têm se concentrado mais naquilo que as duas formas de escrita têm em comum do que em suas diferenças.[1]

 

Se questiona-se hoje a separação entre tais modalidades discursivas, muitas foram as tentativas no passado de diferenciar, de estabelecer fronteiras entre os campos História e Literatura. A discussão remonta à própria constituição histórica desses campos discursivos, ficando, a depender do momento e do contexto, as fronteiras mais ou menos difusas.

Segundo Maria Teresa de Freitas, em sua introdução ao livro Literatura e História – O Romance Revolucionário de André Malraux, na primeira metade do século XIX, sob a influência romântica, os laços entre as duas áreas se estreitam para, no entanto, logo depois se afrouxarem com o advento do positivismo. A História passará então a ser definida como ciência autêntica, pretendendo assim conquistar sua especificidade e independência em relação à Literatura.[2] Sobre o mesmo período, afirma Le Goff que, para a História, a partir de então, o que acontece deve ser explicado em função do momento em que acontece e para essa explicação existe uma ciência específica, que usa processos lógicos, a ciência da história.[3] [4]

É no Renascimento, porém, afirmam alguns estudiosos, que Literatura e História firmam raízes no sentido que têm hoje, pois litteratura passa a designar, conjugada à noção de belles-lettres, o conjunto da produção escrita, incluindo tanto a retórica, a poesia, a filosofia, a teologia quanto a história e as ciências. Mas é no final do século XVIII que Literatura e História começam a se constituir com o sentido que têm hoje, contribuindo para isso alguns fatores como o deslocamento do designativo literário do sentido de conhecimento para o de “gosto”, o desenvolvimento de uma noção de “tradição literária” [5] e a cientificização da História, que sofre uma guinada no sentido da racionalização por influência do Iluminismo, mas ainda, por essa época, não perde por completo o seu caráter de história exemplar.Vale destacar, a esse respeito, um trecho do estudo de Luiz Costa Lima:

 

A narrativa tornou-se uma categoria exclusiva ao texto ficcional a partir de fins do século XVIII, quando a história se assumiu como forma de escrita não literária e, ao mesmo tempo, a literatura abandonou a caracterização retórica – as belas-letras – que a respaldara desde o Renascimento. A história se afastara do solo literário para ingressar na busca da cientificidade.[6]

 

Tomando a Literatura e a História, então, como atividades distintas e autônomas, temos a Literatura como expressão da ficção, da subjetividade, enquanto o fato e a objetividade são elementos constituidores da História. A diferença se coloca, portanto, entre objetos e discursos correspondentes a cada modalidade em suas relações com o real. É nesse sentido a tentativa de diferenciação proposta por Chartier:

 

Relato entre outros relatos, a história singulariza-se, porém, pelo facto de manter uma relação específica com a verdade, ou antes, por as suas construções narrativas pretenderem ser a reconstituição de um passado que existiu. Esta referência a uma realidade situada fora e antes do texto histórico, e que este tem por função reconstituir à sua maneira, não foi dispensada por nenhuma das formas do conhecimento histórico, oumelhor ainda, ela é aquilo que constitui a história na sua diferença mantida com a fábula e a ficção.[7]

 

A consolidação do Romance no século XIX e o desenvolvimento desse gênero que rompe com a tradição clássica é fator importante nesse estudo. Pela liberdade que promove em relação ao veto à subjetividade e representando toda a dinâmica social e humana presente na Modernidade, o Romance traz em sua constituição orientações que comporão o sentido de Literatura como hoje a entendemos, ao mesmo tempo em que comporta a potencialidade de problematizar a fronteira dos campos discursivos em questão, já que, desde os seus inícios, o romance carrega em seu interior os combates de uma luta surda e mal resolvida entre o seu caráter ontológico de invenção e as pressões historicamente exercidas para que assuma o papel de mediador artístico da realidade[8].

 

O Romance Histórico de José Saramago

 

O Romance Histórico mereceria um estudo à parte, assim como a obra de José Saramago. Mas, tendo em vista a dimensão do presente trabalho, isso fica impossível. O romance que escolhe trabalhar com a matéria histórica, por assim dizer, não é coisa recente e a espécie de trabalho que realiza com tal matéria depende da concepção de Literatura e também da concepção de História da época.

As fronteiras entre as duas disciplinas se problematizam ainda mais nesse tipo de romance, pois, se tomarmos como traço específico da História o compromisso específico com a verdade, ou seja, o compromisso com uma realidade que existiu e está fora e antes do texto e que esse texto tenta reconstituir, como propõe Chartier, então o romance histórico seria uma forma de escrita da História.

O século XX promove mudanças tanto no modo de se pensar e fazer Literatura quanto na História. A disciplina histórica, por um lado, vive a crise de ver “cair por terra” suas tentativas de reconstrução fiel do passado, tentativas de construção do fato histórico pleno. Por outro lado, a Literatura parece questionar a pretensa objetividade que guiara os romancistas na tentativa de representação da realidade. Para Auerbach, o autor moderno abandona-se,

 

muito mais do que acontecia antes nas obras realistas, ao acaso da casualidade do real, e embora (...) ordene e estilize o material do real, isto não acontece de forma racional e nem com vistas a uma intenção de levar planejadamente a um fim um contexto de acontecimentos exteriores.[9]

 

No entanto, sabemos que tendências sobrevivem e se renovam. O mesmo se pode dizer talvez da “tendência” realista no romance. Em Portugal, por exemplo, o romance de José Saramago surge no tempo da revolução que acabará com uma ditadura de quarenta anos. Portugal passa por um momento de grandes mudanças.

 

Das formas de ver o mundo, assim, decorrem as perspectivas que caracterizam as recentes tendências: decorrente dos procedimentos metafóricos, os caminhos do insólito se relacionam com o realismo mágico, a alegoria, a paródia e exigem nova organização da sintaxe, onde a verossimilhança textual recebe tratamento de relevo; pelo romance-reportagem, na retomada do fio narrativo (ao contrário da fragmentação tão marcante nos anos 60) em ênfase do aspecto documental da ficção. (Grifo meu).[10]

 

 

O Memorial do Convento

 

É nessa época de importantes mudanças para o país português, num momento de busca da identidade no qual os mitos da lusitanidade ou os mitos históricos se tornam matéria ficcional, que Saramago escreve o seu Memorial. Obra que dialoga não só com a História, mas também com a história literária. É explícita, afirmam alguns estudiosos, a referência intertextual de um romance do período de formação do romance português, a saber: Obras do Diabinho da mão furada, de Antônio José da Silva[11].

 Pela diferença entre seus protagonistas (o protagonista do Memorial é baseado no protagonista do Obras do Diabinho), Saramago estabelece uma relação crítica com esse romance do século XVIII e consequentemente com a tradição literária em que este se inseria. Tradição essa que se caracterizava por ser meramente reprodutora da ideologia oficial, imposta, na época, principalmente por meio da ação repressora desencadeada com fins supostamente religiosos (Santa Inquisição).

O outro diálogo que o Memorial estabelece é com a História, ou talvez seja melhor dizer, com uma certa visão da História.

 

Sendo assim, poder-se-ia dizer que o relacionamento entre o Memorial do Convento e a História realiza-se em dois sentidos distintos: um, de cunho contestatório, que se dirige polemicamente contra uma visão que se poderia chamar de oficializada da História, e um outro que se abre para assimila uma outra visão, diametralmente oposta à visão oficial.[12]

 

Saramago, por meio das diversas situações de paralelismo da História/história, fundamenta o cunho da verossimilhança e veracidade necessárias à feitura do romance histórico. Contribui para essa marca a movimentação das personagens num espaço social e cultural ambientado e a íntima convivência de personagens de ficção, como Baltasar e Blimunda, com as figuras históricas do Pe. Bartolomeu de Gusmão e do músico Domenico Scarlatti. Mas, na opinião de Ceres Fernandes, a preocupação de narrar “o outro lado”[13], assim como a inserção do fantástico, do insólito, do que “poderia ter sido” no relato vão afastar os romances de Saramago, em especial O Memorial do Convento, dos romances históricos tradicionais.

É assim que Saramago constrói o seu romance, tentando preencher as lacunas da história com a ficção, promovendo intenso diálogo entre passado e presente, porque, afinal, o presente é que determina como se vai olhar para o passado. Não se trata, portanto, de um romance que privilegia a matéria histórica, no sentido de fazer com que a narrativa sirva simplesmente para “adornar” o relato. Não. A matéria histórica aqui é parte da obra de arte que se intitula Memorial do Convento. Teresa Cerdeira questiona:

 

Já não nos parece que a história surja, aí, como simples elemento ou técnica capaz de criar no leitor o sentimento de estar em contato com um <discurso da verdade>. Aqui (...) prevaleceria o projecto de fazer história, numa espécie de pressentimento de um longo vazio que um discurso histórico falido foi incapaz de suprir. (...) Saramago explicita o seu desejo de fazer história e de repensar, dessa forma, o modelo do romance histórico português. Será, então, possível acreditar que a <nova história> portuguesa estaria surgindo do discurso literário de um autor consciente e estudioso da História? [14]

 

 

Referências bibliográficas:

 

AUERBACH, Erich. Mimesis. São Paulo: Perspectiva, 1971.

CHARTIER, Roger. “O Passado Composto: Relações entre filosofia e história”. In: CHARTIER, Roger. A História Cultural: entre práticas e representações. Lisboa: DIFEL; Rio de Janeiro: Bertrand, 1990, p.69-89.

COSTA LIMA, Luiz. A aguarrás do tempo: estudos sobre a narrativa. Rio de Janeiro: Rocco, 1989.

FERNANDES, Ceres Costa. O Narrador Plural na Obra de José Saramago. São Luís: EDUFMA, 1990.

FILHO, Odil de Oliveira. Carnaval no Convento: Intertextualidade e Paródia em José Saramago. São Paulo: Ed. Unesp, 1993.

FREITAS, Maria Teresa de. Literatura e História - O Romance Revolucionário de André Malraux. São Paulo: Atual Editora, 1986.

HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo. História, teoria, ficção. Rio de Janeiro: Imago, 1991.

LE GOFF, Jacques. História e Memória. 2.ed. São Paulo: Ed. da Unicamp, 1992.

SARAMAGO, José. Memorial do Convento. Lisboa: Editorial Caminho; Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1982.

SILVA, Teresa Cristina Cerdeira da. José Saramago entre a história e a ficção: uma saga de portugueses. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1989.

WHITE, Hayden. Trópicos do discurso: ensaios sobre a crítica da cultura. São Paulo: EDUSP, 1994.



[1] Linda HUTCHEON. Poética do pós-modernismo. História, teoria, ficção. Rio de Janeiro: Imago, 1991, p.141

[2] Maria Teresa de FREITAS. Literatura e História - O Romance Revolucionário de André Malraux. São Paulo: Atual Editora , 1986, p. 1

[3] Jacques LE GOFF. História e Memória. 2. ed. São Paulo: Ed. da Unicamp, 1992, p.88

[4] A História, nesse momento em que tenta se constituir como gênero, chega a ver a narração pura e simples dos fatos como a melhor prova da realidade desses fatos. Institucionaliza a narração como significante direto do real. A narrativa volta a fazer parte da escrita da História.

[5] Há outros fatores.

[6] Luiz COSTA LIMA. A aguarrás do tempo: estudos sobre a narrativa. Rio de Janeiro: Rocco, 1989. p.106

[7] Roger CHARTIER. O Passado Composto. Relações entre filosofia e história. In: A História Cultural: entre práticas e representações. Lisboa: DIFEL; Rio de Janeiro: BERTRAND, 1990. p. 84

[8] Odil de Oliveira FILHO. Carnaval no Convento: Intertextualidade e Paródia em José Saramago. São Paulo: Ed. Unesp, 1993. p. 69

[9] Erich AUERBACH. Mimesis. São Paulo: Perspectiva, 1971. p.473

[10] Maria de Lourdes Netto SIMÒES. Saramago e a Geração dos Cravos. Letras&Letras (virtual), 1997 - 2000

[11] Odil de Oliveira FILHO. Carnaval no Convento: Intertextualidade e Paródia em José Saramago. São Paulo: Ed. Unesp, 1993, p. 31

[12] Id., ibid., p. 99

[13] Esse estudioso defende um narrador, para a obra de Saramago, em especial o Memorial do Convento; Levantado do Chão e O Ano da Morte de Ricardo Reis, que chama de “deslizante”. A citação: Ceres Costa FERNANDES. O Narrador Plural na Obra de José Saramago. São Luís: EDUFMA, 1990, p. 24

[14] Teresa Cristina Cerdeira da SILVA. José Saramago entre a história e a ficção: uma saga de portugueses. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1989, p.28